Sou do tipo que vai pra rua


Só percebi o quanto esta frase tem sentido literal em minha vida, após escrevê-la. Embora nascida, criada e educada num lugar simples, pacato e naturalmente tímido, os genes da ousadia mantiveram seu espaço dentro de mim. Não que ter ousadia seja algo excepcional, pelo contrário. É, antes de tudo, um risco. Com todas as probabilidades e improbabilidades que permeiam os ousados, você pode se dar muito bem, ou muito mal.
Mas esta nunca foi uma preocupação. Instintivamente, e pelas dicas de minha mãe, sempre tive a certeza de que, se fizesse com o coração sem vaidade ou egoísmo, bem ou mal, o resultado seria bom.
A primeira vez em que fui pra rua em uma manifestação coletiva, foi no desfile patriótico de sete de setembro. Confesso que todas as vezes que tal ato se repetiu, foi por mera imposição. Não encontrava sentido naquela marcha altiva e sisuda que fazia uma garotinha de pernas finas e cabeça de vento, sentir-se ridícula.
Depois disso, fui pra rua pela seleção brasileira. Em cada uma das tantas vezes, eu sabia que aquele manifesto não passava de pura paixão competitiva. E que, independentemente do número de títulos mundiais da seleção, nada mudaria na minha vida. A não ser as minhas próprias vitórias, ou derrotas.
Mais tarde fui pra rua pelos movimentos estudantis. Esses sim considerava serem de extrema importância para o meu desenvolvimento pessoal. Mais precisamente para a faceta revolucionária da minha personalidade acadêmica.  Gritei pela greve, soprei apito, envolvi meus cabelos com faixa, lutei pelos meus direitos. Tudo isso, é claro, arrematado pela sonzeira da bandinha de rock da “facul”.
Depois, passei a ir pra rua reivindicar mudanças políticas e, automaticamente, sociais para o meu país. Tudo começou quando pintei a cara pelo impeachment do Collor e tomei consciência da importância da minha posição de “povo,” e do quanto poderia e deveria utilizar-me dela para moralizar a sociedade em que vivo.
Fui pra rua pelo aumento da passagem de ônibus. Não dependo de ônibus para me locomover, mas não ficaria em casa vendo milhões de pessoas serem lesadas por uma medida interesseira e incabível.
Fui pra rua no dia 15 de março de 2015. Desta vez por estar me sentindo gravemente prejudicada pelo sistema político e, automaticamente, social do país. Mas, diferentemente da época em que fui “cara pintada”, desta vez eu me senti julgada, ameaçada e, até, condenada. Inacreditavelmente pelos apoiadores do atual governo. Os mesmos que foram os maiores incitadores das manifestações populares no Brasil.
Fui incluída numa tal de “elite branca”, da qual não faço a mínima ideia do que seja, mas me remete asquerosamente à postura de um senhor alemão que usava um bigodinho ridículo. 
A menos que ser artista e ter de me expor, e ao meu trabalho, incansavelmente tenha virado rotina burguesa. Neste caso, deveriam, então, depositar alguns milhões em minha conta bancária, junto com a hierarquia do título a que me nomearam.
Enquanto tanto se discursa sobre homogeneidade racial e de direitos, vejo a raça branca sendo alvo de um preconceito infundado e absurdo. Sou branca, mas não sou milionária. Não fui pra rua em busca de cargo de confiança. Não fui pra rua para defender a mordomia que não tenho. 
Incluíram-me também no time dos despeitados do Aécio, o senhor que perdeu as eleições para a presidência do país. A mim, que nunca defendi qualquer sigla política, pois luto por uma ideologia que está muito além da ideologia de qualquer partido político brasileiro.
Fui pra rua pela roubalheira escancarada dos governantes. Fui pra rua pelo desfalque da Petrobrás. Fui pra rua pelo preço da gasolina. Fui pra rua pela pobreza da nossa educação, pela pobreza da nossa saúde, pela pobreza da nossa cultura. 
Fui pra rua porque pensei estar vivendo num regime democrático. Mas, espantosamente, me senti acuada, rechaçada, ridicularizada. Vi uma democracia fajuta dividir o povo em duas correntes opostas de uma engrenagem emperrada. De um lado, a esquerda que já foi direita. Do outro, a direita que já foi esquerda. De um lado, os vermelhos.  De outro, os amarelos.
Fui pra rua sem partido. Vesti uma blusa verde, pus um lenço amarelo na cabeça. Ao meu lado, pessoas vestiam camisetas da seleção brasileira e, por conta disso, também foram criticadas, julgadas, condenadas: “Elite branca com a camiseta da seleção!” A que ponto chegamos? Cadê a noção?
Vi a ignorância dando risada. Tantos milhões imbecilizados! O povo que não é unido já está vencido. Vi um país dividido.
Lá em cima, sobre o poderio de nossas vidas, vejo deuses. Senhores indestrutíveis  manipulando nossos destinos. Controlando números, desviando quantias, taxando produtos, enchendo os bolsos, os cofres, as contas. 
Aqui embaixo, vejo gente. Pessoas pobres, doentes, sem instrução, pagando aos deuses, os altos custos de viver.
Não há partido político que desminta isso! Não há presidente, ex-presidente ou “quase-presidente” que encubra essa situação! Não há quem prove que vai tudo bem com a nação! Vai tudo muito mal! O pior cego é o que finge não ver.
E é por isso, somente por isso, que eu sempre irei pra rua.

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Marcas




Dia desses, meu filho chamou atenção sobre algumas ranhuras na madeira da mesa da copa. Segundo ele a mesa estava feia e precisando de reforma. 
Eu estava lavando louça e não me dei o trabalho de parar para avaliar o tamanho do estrago. Tinha gravado na mente cada uma das marcas que ele se referia. Poderia contar a história de cada um delas. Como foi feita, por qual objeto, em que momento, se era noite ou dia. Com exceção das que se sucederam sem a minha presença. Os arranhões traquinas, feitos por mãozinhas descuidadas durante os trabalhos escolares ou no lanche com a galerinha da escola.
Ao pensar na reforma sugerida percebi que a mesa da copa não seria a mesma sem estas marcas.  Lixá-la apagaria cada um destes momentos. O verniz novo soterraria aquelas lembranças.
— Gosto da mesa assim, cheia de manchas e fissuras. Finalmente respondi.
Ele resmungou algumas palavras em defesa à estética do móvel, e outras condenado a loucura de sua mãe. Achei que era hora de uma conversa séria.
Não gosto de móveis lineares, impecavelmente brilhantes. Acho triste e impessoal os ambientes feitos sob medida, ocupando todas as paredes sem deixar espaço para um armário antigo, uma relíquia de família. Não vejo graça nas casas completamente decoradas por arquitetos que nunca morarão nela. Gosto do improviso. Da mistura de cores. Da diferença de estilos.
Admito que não só já incorporei este padrão, como muito me estressei com copos de suco sobre o aparador da sala. Com xícaras de café sobre o braço do sofá. O furinho sem quadro, na parede. A mancha imperceptível da erva mate, no tapete.  O amassado da geladeira feito no dia da mudança. As manchas ao lado da cama, feitas por pés jogadores de videogame. A persiana cansada de tanto abrir e fechar.
Claro que já tive vontade de transformar minha casa num modelo de revista.  Impecavelmente linda, limpa e organizada, como na hora que bateram a foto. Mas não funciona. A menos que você esteja pensando em enlouquecer dia a dia.
Estamos falando de gente normal. De mim de você. De seres que não existem em páginas de revistas ou cenários de novela. Estamos falando de gente que come, bebe, dorme, trabalha se diverte e suja! Arranha, quebra, entorta! Gente que vive.
Nenhum ambiente retrata melhor a história de vida de alguém do que as casas simples. Nunca esquecerei as casas das minhas duas avós. Paredes de madeiras. Assoalhos lustrosos. Tapetes de crochê. Panelas areadas que serviriam facilmente de espelhos. Fogão a lenha. Xícaras lascadas de tanto servir café de bule. Cortininhas de tecidos vaporosos. Toalhinhas sobre os móveis. Novelo de lã espetado com agulhas de tricô, esquecidos sobre o sofá. Música saindo do radinho de pilha. Vida transbordando em cada cômodo.
Gostaria que a minha casa fosse lembrada desse jeito. Que cada cantinho remetesse a um momento vivido. Que as alegrias e, até, as tristezas compusessem a decoração e construíssem a nossa história. E depois que muitos anos tivessem se passado, como num livro, pudéssemos relê-la página por página.
Na casa da minha mãe havia um banheiro com azulejos de flores roxas e a louça sanitária era do mesmo tom, para combinar. Eu achava aquilo tão cafona! Queria que ela o reformasse e tornasse tudo branco. Que bom que ela nunca me ouviu.  Das tantas saudades que sinto dela, a do seu banheiro roxo é a mais perfumada.
Já faz quase um ano que a ela partiu. Voltar “lá em casa” ainda é muito difícil. Cada enfeite que a vi comprar, cada móvel, tapete, louça... é um pedaço da minha mãe. São trechos da história que ela escreveu, da qual fiz parte tão intensamente, a qual me falta tão dolorosamente.  Como de praxe, a casa será vendida. Certamente demolida, mas nossa história nunca morrerá.
E foi assim, que não só meu filho passou a admirar nossa mesa arranhada, como fez um pedido:
— Mãe escreve sobre isso.
Desta vez eu o atendi e aqui está, mais um trecho da minha história. Torço muito para que você também arranhe, quer dizer, escreva a sua história de forma inesquecível. 



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Resiliência


Pouquíssimas pessoas despendem o tempo necessário para, verdadeiramente, conhecerem-se. Na convivência com elas percebo que poucas, muito poucas estão preocupadas em autoanalisar-se e, simultaneamente, melhorar-se.
Concordo que o conteúdo do parágrafo acima não seja algo muito agradável de praticar. Assumir as próprias falhas é penoso demais. Imagina corrigi-las! Melhor sumir. Fingir de morto. Continuar vivendo cheio de defeitos. Seguir apontando o rabo do macaco ao lado.
E, por estas e outras, o planeta continua sendo habitado por espécies estranhas. Que não fazem ideia do quanto são estranhas ou, se fazem, fingem não saber para não se darem o trabalho de deixar de ser.
Não estamos falando em santidade. Esta coisa de santo não é desta existência. Até porque se algum santo resolvesse viver neste mundo, perderia o título logo, logo. Tamanho o peso da provação. No mínimo, em pouquíssimo tempo, já teria decorado o dicionário terrestre de palavrões.
Estamos falando de autocontrole, apenas. Do simples controle sobre as fraquezas nossas de cada dia, que são somente nossas e ninguém, além de nós mesmos, precisa aguentá-las.  De gente que bota os seus monstros para espantar indiscriminadamente os outros pelas ruas ou, com maior reincidência, dentro de suas próprias casas.
Dificilmente alguém me dá crédito quando digo que num velho dia resolvi mudar. Entendo que isto não cause buchicho, fofoquinha, diz-que-me-diz-que. Sei que teria mais atenção se dissesse que já pensei em me jogar da janela do quinto andar. Ou que dormi num banco de praça. Sei lá. Falta inspiração quando o assunto é acabar comigo.
Sou resiliente demais. O que significa o contrário de duro, firme, rígido. Mas que não quer dizer que sou mole, boca aberta, tansa. Embora algumas pessoas já tenham me nomeado com algum destes adjetivos (as que consideram vantagem ser duro na queda).
Ter resiliência com a vida, significa ser flexível a todas as forças dispostas a nos derrubar. Faz com compreendamos as outras pessoas e nos curvemos às suas razões, do alto de nossa arrogância. E, (o mais importante de todos os atributos) faz com nos dobremos ao peso de nossas falhas e nos dispusemos a melhorar, nos reerguer.
Tenho plena consciência do mau humor que me acomete às vezes. Da irritabilidade que me possui de vez em quando. Da tristeza que me envolve. De todas as bolas fora. Dos erros...Enfim, assumo-me falível como qualquer ser que é humano e vive na Terra. Mas no meio destes surtos de gente, procuro manter incólumes os que não têm nada a ver com isso, mesmo estando bem próximos de mim.
Não se adquire a resiliência estalando os dedos. Tampouco existe uma árvore chamada resilencieira, de onde podemos colhê-la em determinadas épocas do ano. Não é vendida em cápsulas, ou em alguma mistura instantânea para se ingerir no café da manhã. Trocando em miúdos, tornar-se resiliente é dureza!
Exatamente por isso o mundo está tão povoado de gente irredutível, intransponível, inacessível, incorrigível. Jeitos tão fáceis de ser e tão falsos de existir.
Num dos meus discursos silenciosos (que faço em forma de poesia) alguém acrescentou: ” Jeitos tão humanos de ser”. Do que não discordo, mas entristeço e arremato:
Não precisamos ser santos, mas podemos poupar o mundo das nossas diabólicas fraquezas.

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Enigma


Um filme, para ser inesquecível precisa conter alguma mensagem subliminar que ultrapasse a riqueza do roteiro e a competência do elenco. Uma cena apenas, uma única frase, um instante. O “click” necessário para despertar no subconsciente a emoção que cochilava no sofá.
Foi assim que “O jogo da imitação” entrou para estante dos filmes que irei lembrar para sempre e, é claro, recomendar às pessoas. Não só pela história em si, mas por um pequeno detalhe que, para mim (talvez somente para mim), tenha tornado o filme ainda mais fascinante.
Sem saber que fora o escolhido pelo público como o melhor filme em competição no prestigiado Festival de Cinema de Toronto (Canadá,) e que estava entre os indicados ao Oscar 2015, mergulhei completamente na cinebiografia do gênio matemático Alan Turing (impecavelmente interpretado por Benedict Cumberbatch). 
Mas foi a figura feminina, não menos que a charmosíssima Keira Knightley que, além de emprestar brilho, leveza e romantismo à trama, fez o “click” acontecer. Num breve e decisivo diálogo, no qual Turing rompe o noivado, Joan descreve magistralmente o amor.
 “Não me importa que você seja diferente, eu amo você. Eu me preocupo com você e sei que você se preocupa comigo. Cuidamos um do outro. Somos felizes juntos. Eu quero ficar ao seu lado até o fim da vida”. Não foram exatamente estas as palavras ditas por ela, mas foi a mensagem incrustada em mim.
Tive que pausar o filme. Precisava de um tempo para analisar com cuidado cada uma das frases ditas pela linda moça, no momento em que seu noivo assumia ser homossexual. Numa época e num país em que isto era considerado crime.
Acreditamos que o amor deva chegar às nossas vidas de braços dados com a perfeição. Ouvimos e assimilamos as mais burlescas teorias relacionadas a pares perfeitos, almas gêmeas, caras metades... Sequelas dos contos de fadas.
Apostamos no amor cheio de pré-requisitos, conveniências, aparências e, absurdamente, em tendências. “Gostaria de alguém assim, de tal jeito, com tal formato...”. Caraca! Isto não é amor, é encomenda.
O amor não é premeditado.  Não segue nenhum manual à risca. Não está à mostra em catálogos. Pelo contrário, o amor se mostra exatamente quando frustra nossas expectativas.
Amar alguém perfeitinho, bonitinho, riquinho, parece ser moleza. Só que não. Primeiro, porque este alguém não existe. Segundo, porque ainda que existisse, haveria uma grande chance de não rolar a química, entende?
Ah, a tal química! Esta sim é um enigma, que eu prefiro chamar de energia. A energia que gera o amor.
Já aconteceu de, de repente, você se ver envolvido por alguém fora do catálogo? O tal catálogo dos partidos perfeitos. E, inexplicavelmente, você começa a pensar neste alguém mais do que gostaria? E precisa estar ao seu lado mais do que suporia? E passa a se preocupar com  o bem estar deste alguém, mais do que do seu? E não imagina mais a vida sem esta presença?
Caso você não tenha desconfiado, isto é amor. 
A Joan, do filme, conseguiu decodificar muito mais do que a máquina nazista. Ela decodificou tabus, restrições, impedimentos e revelou a verdadeira mensagem contida no amor. O amor que preenche a alma e alegra a vida, e é gerado pela outa pessoa. Que não é perfeita.
Claro que não é tão simples assim, estamos de acordo que ninguém vai ser feliz o tempo todo para sempre. Mas é possível amarmos pelo resto das vidas, se estivermos bem preparados para enfrentar os altos e baixos.
Quem assistir ao filme poderá constatar que ao fim de tudo, quando nada mais fizer sentido e o final não for feliz, só restará o amor que geramos e somente ele, nada mais do que ele, nos confortará.
Fica, literalmente, a dica.

https://www.facebook.com/leia.batista.1


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A parte que me toca






Jurei a mim mesma não falar mais dos prós e contras da evolução tecnológica e nem repetir o blá blá blá  de quem acha que o desiquilíbrio social seja mais letal à vida do planeta do que o ambiental; que o segundo é consequência do primeiro e que deveriam criar-se ONGs que defendessem e preservassem a integridades dos indivíduos.
Mas não consigo silenciar a sirene que dispara em mim enquanto vivo. Precisaria deixar de existir para fingir que a anormalidade não passou a ser normal. Que o planeta continua girando como sempre fez, e as pessoas não têm perdido as cabeças em meio a esta rotação. Que estamos à beira de um colapso, e o nervosismo parece ser um problema unicamente meu.
Sou capaz de relatar com riquezas de detalhes quando tudo começou. Lembro exatamente o dia, a hora e a roupa que vestia, há nove anos. Estava num navio, num destes cruzeiros que viraram hit do turismo brasileiro, quando a música saltou dos alto falantes e inundou o salão de convivência e, com exceção de mim e algumas dezenas de pessoas, a maioria dos passageiros acompanhou-a em coro.  Nunca esqueci o dia, em que fui apresentada ao sertanejo universitário. 
De lá para cá, foi questão de adaptação. Não utilizei o conselho que manda aliar-se ao inimigo, caso não consiga vencê-lo. Continuei do lado oposto defendendo a posição de que a promiscuidade cantada nunca deixará de ser imoral, e jamais será música. 
E o inimigo foi ganhando força e aliados. O funk, o arrocha, as novelas, a política... A apologia às drogas, à depravação, à alienação, à corrupção. Um exército invencível. Admito. 
Tentei aliar-me ao grupo pacifista dos ”que dizem não ter nada a ver com isto”. Procurei manter-me ilesa aos disparos de iniquidade e sobreviver sorrateiramente no porão das minhas convicções. Mas os estilhaços sempre acabam me atingindo.
O mais recente partiu de uma criança. Uma menina beirando os dez anos, segundo a imagem de mais um dos milhares de vídeos da internet.  Meu pai costumava dizer: ”Para aparecer basta subir na torre da igreja e pintar a bunda de vermelho”. Ele não conseguiu viver até a época em que não é preciso correr nenhum risco para se fazer notar. Basta fazer um vídeo idiota e publicar na internet. Mostrar a bunda continua dando resultado.
Foi o vídeo desta menina que machucou gravemente a parte que me toca, fazendo-me sair da minha alcova compulsória. 
Ver marmanjo bancando idiota, representando o dublê do capeta pra se sentir no poder, nem me arranha. Mas assistir uma criança, proferindo palavrões que sou incapaz de escrever.  Sendo filmada, provavelmente por um adulto, interpretando uma pessoinha desequilibrada aos moldes de “Carrie, a estranha”, pelo fato de ter de fazer um trabalho escolar que, segundo os seus xingamentos, não acrescentam nada em sua vida. Acabou comigo.
Criança não! Criança não pode ser adulterada. Elas precisam ser preservadas como o antidoto que, no futuro, poderá desfazer a maldição lançada sobre o presente. 
Senti vontade de ir atrás dos irresponsáveis que criam esta menina e dar-lhes uma surra. E fazer o mesmo com os que filmaram a coreografia pornográfica de dois anjinhos que mal saíram das fraldas. 
Jurei tentar não me envolver. E é o que tenho feito com a maioria das aberrações que vazam pelos encanamentos da internet. Não posso lutar com o inimigo que é poderoso demais.
Porém, quando a ameaça ultrapassa os vãos da minha tolerância e se faz ver na pele de uma criança, quero lutar. Quero encarar o bando de adultos retardados e exterminá-los um a um. Sinto desejo de fazer justiça com as próprias mãos. Então escrevo. Não antes de rezar muito e pedir a Deus que afaste o mal da parte que me toca. 




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Desafio você a saltar


“Se você me pedisse para saltar de paraquedas de um helicóptero agora, eu o faria”. Proferiu esse pensamento com tamanha emoção que quase pude vê-lo plainando entre as estrelas do céu, naquela noite.
De quem se espera ouvir uma frase como esta? Se não tivesse sido dita a mim, juraria se tratar de um jovem em pleno vigor das faculdades aventureiras ou de alguém no ápice da desilusão existencial, ambos querendo encarar a vida de cima só para cuspir-lhe de coragem e provar que, em alguns momentos, não é ela quem manda.
Mas foi um homem maduro e muito bem sucedido profissionalmente e, aparentemente, de bem com as questões amorosas que confessou isso a mim, um segundo após eu lhe ter perguntado: “Você é feliz?”.
Mas o que lançar-se de paraquedas no colchão negro do céu tem a ver com ser ou não ser feliz?
Também tive este lapso de estranhamento até que, mais rápido do que o girar de pescoço da coruja que nos observava sobre a cerca de madeira, ele esclareceu: “Faria qualquer coisa para ter a sensação de felicidade, pois mesmo tendo tudo para ser feliz, não sou”.
Só quem já passou por uma situação como esta sabe o quanto ela é desconcertante.  Sorte que a noite é habilidosa em dissimular expressões e impressões.  Projetei o meu olhar mais casual sobre a sua face esmorecida e, como todos aqueles que não sabem a resposta a ser dada, eu repeti: “Então, você não é feliz...”. E desta vez ele foi mais rápido do que o mosquito que acabara de picar minha perna sem ser visto: “Não, eu não sou feliz”.
Caramba! Quem mandou eu me intrometer na vida de alguém que acabara de conhecer naquele maravilhoso bar de frente para o mar? Poderia ter lhe perguntado sobre a sua predileção musical, já que ele parecia animado com o repertório executado pelo músico que ali se apresentava. Esta mania de me aprofundar nas almas alheias ainda me enredará seriamente.
Não dá para simplesmente mudar de assunto depois que alguém lhe confessa que não é feliz. Nem propor um brinde para quebrar o gelo: “Viva a vida!”. Muito menos buscar a saída de emergência: “Vamos dançar esta?”.
Ninguém revela a alguém que acabara de conhecer que é infeliz para ter o silêncio como resposta. Ainda mais quando esta pessoa descobre que você é escritora, e que escreve historinhas reais sobre a vida que deveria ser de mentira. Ou seja, o cara estava esperando ansiosamente que eu lhe dissesse alguma coisa!
E o que eu poderia dizer ao senhor infeliz? Que só poderia ser nóia da cabeça dele? Que deveria ser louco por não estar feliz com a sua profissão e, consequentemente, com o seu salário e tudo que ele lhe propiciava? Que naquela altura do campeonato deveria ir para a o camarote da vida e esquecer a besteira de querer experimentar suar na avenida? Que procurasse um psiquiatra e exigisse que ele lhe receita-se “antiefusivos” que lhe eliminasse completamente a vontade de não se acomodar? Que tomasse um Engov e esperasse a embriaguez passar, pois, certamente, seria ela a culpada por todos os desabafos feitos à noite a estranhos? 
Eu teria que nascer de novo, para dizer a alguém barbaridades como estas. E, certamente, sem a inquietante alma de escritora.
 “Bem-vindo ao time dos corajosos!”.  Disse-lhe finalmente.  E no exato momento que em que mirei sua face - agora incrivelmente intumescida - percebi que havia encontrado as palavras certas e que ele havia compreendido exatamente a complexidade do simplismo que ela contém.
Ninguém recebe o rótulo da felicidade colado no bumbum quando nasce junto com as palmadas que o forçam a respirar. Ninguém consegue ser feliz o tempo todo, em tudo. O mundo é feito de dois tipos de gente. O que é infeliz e o que busca ser feliz. Ou, em outras palavras, os acomodados e os corajosos.
E resolvi terminar a conversa com brilhantismo que ela iniciara “Olha, helicóptero e paraquedas a esta hora da noite é complicado, mas a cinquenta metros daqui há uma rampa de parapente. Amanhã, cedinho, com vento ou sem vento, eu desafio você a saltar”.  
E ele respondeu: “Vamos dançar esta?”.



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Tchibum!



Todo mundo possui acontecimentos guardados na caixinha das coisas inesquecíveis da vida. Alguns que adoramos vasculhar, remexer, revisitar. Outros que preferiríamos trancafiar a sete chaves e depois lançar, com caixa e tudo, bem no fundo do oceano. Lista-se aí as decepções, as perdas, os desenganos, os vexames. Do mais baixo ao mais alto grau de gravidade, estes episódios são, ironicamente, os mais desagradáveis e marcantes também.
Lembro até o hoje do tombo que levei durante uma partida de vôlei. Aparentemente, um fato irrelevante na vida de qualquer ser humano, se não tivesse acontecido diante da torcida do colégio em que estudava, na plenitude da adolescência.  Estatelar-me no chão diante do garoto por quem estava apaixonada e das dezenas de candidatas a rival, deveria, realmente, ser algo do tipo que a gente levanta, sacode a poeira e samba em cima. Mas não é.
Tudo indica que aquela cena, que reprisa até hoje em minha memória sempre que, descuidadamente, dou “play” nos meus filminhos terroristas, é a responsável pelo fracasso como possível jogadora de vôlei. Estou me referindo a nunca ter conseguido ser, sequer, uma jogadora amadora de vôlei de praia. Atirava-me no mar sempre que a alguém da galera soltava aquele grito aterrorizante: “Vamos fazer um timinho de vôlei?!” Tchibum! Nestas horas você descobre que é impossível matar os traumas por afogamento.
Citei um fato simples, até hilário, para exemplificar a vulnerabilidade que nos constitui e, antagonicamente, a magnificência que cobramos de nós mesmos e principalmente dos outros.
Não nego que, por certo tempo, acreditei que houvessem pessoas perfeitas. Modelos com garantia de fábrica e selo do Criador.  E não só procurei por elas, como tentei ser igual. Límpida, sem manchas, sem arranhões, sem oscilações. (Recomendo que não tentem repetir isto em casa, nem em lugar nenhum, pois é extremamente perigoso). 
Não sou perfeita! Experimente dizer isto em frente ao espelho e veja o alívio que dá. Não tenho culpa de ser um modelo recondicionado, pelo contrário, assumo as fissuras que me tornam única. Minha digital é formada por muito mais do que meros risquinhos no dedo.
Ninguém é perfeito! Experimente está frase também e tente acreditar nela.  O mundo é feito de gente que tropeçou na hora em que deveria executar o passe primoroso. Gente que não consegue afogar suas próprias reprovações, embora finja que está tudo, fantasticamente, sepultado no cemitério das desilusões.
Não estou propondo a todos que morramos feliz com nossas falhas. Pelo contrário, gostaria de poder excluir a frase “pau que nasce torto morre torto” da lista dos provérbios populares. Considero-a uma ameaça ao aprimoramento humano. Gente que decide morrer torta não tem é vergonha na cara, isto sim. Dá pra melhorar, e muito! Mas não sem abrir a gaveta das fraquezas.
Precisei de muitos mergulhos no mar para descobrir que a saída era entrar naquele retângulo delimitado na areia da praia e tentar acertar a bola sobre a rede mais do que o nariz no chão, ou sentar na cadeira e assistir ao vôlei da galera. Optei pela segunda opção. Um pouco pela preguiça e muito pela covardia mesmo. Há muito, assumi que tenho jeitos covardes de ser. Mas tenho facetas corajosas também. Uma delas é não ter medo de ser quem eu sou.

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