Desafio você a saltar


“Se você me pedisse para saltar de paraquedas de um helicóptero agora, eu o faria”. Proferiu esse pensamento com tamanha emoção que quase pude vê-lo plainando entre as estrelas do céu, naquela noite.
De quem se espera ouvir uma frase como esta? Se não tivesse sido dita a mim, juraria se tratar de um jovem em pleno vigor das faculdades aventureiras ou de alguém no ápice da desilusão existencial, ambos querendo encarar a vida de cima só para cuspir-lhe de coragem e provar que, em alguns momentos, não é ela quem manda.
Mas foi um homem maduro e muito bem sucedido profissionalmente e, aparentemente, de bem com as questões amorosas que confessou isso a mim, um segundo após eu lhe ter perguntado: “Você é feliz?”.
Mas o que lançar-se de paraquedas no colchão negro do céu tem a ver com ser ou não ser feliz?
Também tive este lapso de estranhamento até que, mais rápido do que o girar de pescoço da coruja que nos observava sobre a cerca de madeira, ele esclareceu: “Faria qualquer coisa para ter a sensação de felicidade, pois mesmo tendo tudo para ser feliz, não sou”.
Só quem já passou por uma situação como esta sabe o quanto ela é desconcertante.  Sorte que a noite é habilidosa em dissimular expressões e impressões.  Projetei o meu olhar mais casual sobre a sua face esmorecida e, como todos aqueles que não sabem a resposta a ser dada, eu repeti: “Então, você não é feliz...”. E desta vez ele foi mais rápido do que o mosquito que acabara de picar minha perna sem ser visto: “Não, eu não sou feliz”.
Caramba! Quem mandou eu me intrometer na vida de alguém que acabara de conhecer naquele maravilhoso bar de frente para o mar? Poderia ter lhe perguntado sobre a sua predileção musical, já que ele parecia animado com o repertório executado pelo músico que ali se apresentava. Esta mania de me aprofundar nas almas alheias ainda me enredará seriamente.
Não dá para simplesmente mudar de assunto depois que alguém lhe confessa que não é feliz. Nem propor um brinde para quebrar o gelo: “Viva a vida!”. Muito menos buscar a saída de emergência: “Vamos dançar esta?”.
Ninguém revela a alguém que acabara de conhecer que é infeliz para ter o silêncio como resposta. Ainda mais quando esta pessoa descobre que você é escritora, e que escreve historinhas reais sobre a vida que deveria ser de mentira. Ou seja, o cara estava esperando ansiosamente que eu lhe dissesse alguma coisa!
E o que eu poderia dizer ao senhor infeliz? Que só poderia ser nóia da cabeça dele? Que deveria ser louco por não estar feliz com a sua profissão e, consequentemente, com o seu salário e tudo que ele lhe propiciava? Que naquela altura do campeonato deveria ir para a o camarote da vida e esquecer a besteira de querer experimentar suar na avenida? Que procurasse um psiquiatra e exigisse que ele lhe receita-se “antiefusivos” que lhe eliminasse completamente a vontade de não se acomodar? Que tomasse um Engov e esperasse a embriaguez passar, pois, certamente, seria ela a culpada por todos os desabafos feitos à noite a estranhos? 
Eu teria que nascer de novo, para dizer a alguém barbaridades como estas. E, certamente, sem a inquietante alma de escritora.
 “Bem-vindo ao time dos corajosos!”.  Disse-lhe finalmente.  E no exato momento que em que mirei sua face - agora incrivelmente intumescida - percebi que havia encontrado as palavras certas e que ele havia compreendido exatamente a complexidade do simplismo que ela contém.
Ninguém recebe o rótulo da felicidade colado no bumbum quando nasce junto com as palmadas que o forçam a respirar. Ninguém consegue ser feliz o tempo todo, em tudo. O mundo é feito de dois tipos de gente. O que é infeliz e o que busca ser feliz. Ou, em outras palavras, os acomodados e os corajosos.
E resolvi terminar a conversa com brilhantismo que ela iniciara “Olha, helicóptero e paraquedas a esta hora da noite é complicado, mas a cinquenta metros daqui há uma rampa de parapente. Amanhã, cedinho, com vento ou sem vento, eu desafio você a saltar”.  
E ele respondeu: “Vamos dançar esta?”.



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Tchibum!



Todo mundo possui acontecimentos guardados na caixinha das coisas inesquecíveis da vida. Alguns que adoramos vasculhar, remexer, revisitar. Outros que preferiríamos trancafiar a sete chaves e depois lançar, com caixa e tudo, bem no fundo do oceano. Lista-se aí as decepções, as perdas, os desenganos, os vexames. Do mais baixo ao mais alto grau de gravidade, estes episódios são, ironicamente, os mais desagradáveis e marcantes também.
Lembro até o hoje do tombo que levei durante uma partida de vôlei. Aparentemente, um fato irrelevante na vida de qualquer ser humano, se não tivesse acontecido diante da torcida do colégio em que estudava, na plenitude da adolescência.  Estatelar-me no chão diante do garoto por quem estava apaixonada e das dezenas de candidatas a rival, deveria, realmente, ser algo do tipo que a gente levanta, sacode a poeira e samba em cima. Mas não é.
Tudo indica que aquela cena, que reprisa até hoje em minha memória sempre que, descuidadamente, dou “play” nos meus filminhos terroristas, é a responsável pelo fracasso como possível jogadora de vôlei. Estou me referindo a nunca ter conseguido ser, sequer, uma jogadora amadora de vôlei de praia. Atirava-me no mar sempre que a alguém da galera soltava aquele grito aterrorizante: “Vamos fazer um timinho de vôlei?!” Tchibum! Nestas horas você descobre que é impossível matar os traumas por afogamento.
Citei um fato simples, até hilário, para exemplificar a vulnerabilidade que nos constitui e, antagonicamente, a magnificência que cobramos de nós mesmos e principalmente dos outros.
Não nego que, por certo tempo, acreditei que houvessem pessoas perfeitas. Modelos com garantia de fábrica e selo do Criador.  E não só procurei por elas, como tentei ser igual. Límpida, sem manchas, sem arranhões, sem oscilações. (Recomendo que não tentem repetir isto em casa, nem em lugar nenhum, pois é extremamente perigoso). 
Não sou perfeita! Experimente dizer isto em frente ao espelho e veja o alívio que dá. Não tenho culpa de ser um modelo recondicionado, pelo contrário, assumo as fissuras que me tornam única. Minha digital é formada por muito mais do que meros risquinhos no dedo.
Ninguém é perfeito! Experimente está frase também e tente acreditar nela.  O mundo é feito de gente que tropeçou na hora em que deveria executar o passe primoroso. Gente que não consegue afogar suas próprias reprovações, embora finja que está tudo, fantasticamente, sepultado no cemitério das desilusões.
Não estou propondo a todos que morramos feliz com nossas falhas. Pelo contrário, gostaria de poder excluir a frase “pau que nasce torto morre torto” da lista dos provérbios populares. Considero-a uma ameaça ao aprimoramento humano. Gente que decide morrer torta não tem é vergonha na cara, isto sim. Dá pra melhorar, e muito! Mas não sem abrir a gaveta das fraquezas.
Precisei de muitos mergulhos no mar para descobrir que a saída era entrar naquele retângulo delimitado na areia da praia e tentar acertar a bola sobre a rede mais do que o nariz no chão, ou sentar na cadeira e assistir ao vôlei da galera. Optei pela segunda opção. Um pouco pela preguiça e muito pela covardia mesmo. Há muito, assumi que tenho jeitos covardes de ser. Mas tenho facetas corajosas também. Uma delas é não ter medo de ser quem eu sou.

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A incrível geração de mulheres que ainda acredita no homem do saco



Li, num blog conhecido da internet, um artigo intitulado “ A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer.” E de cara, já nas primeiras linhas do texto, deduzi aonde a autora pretendia chegar e chegou,  muito rapidamente graças a minha leitura dinâmica.
Guerra dos sexos a esta altura da evolução humana? Não tenho paciência. 
Pelo título já dá para sacar que depois de todo blá-blá-blá sobre a mulher ser super isto, super aquilo, super aquilo outro, acaba ficando sozinha porque nenhum homem compreende esta faceta superchata dela ser.
Autoflagelo a esta altura da evolução do planeta? Não tenho saco!
Opiniões estão aí para serem publicadas e respeitadas, mas, pelo amor de Deus, não dá para tomar um estado de vida, e neste caso, certamente, uma vida solitária e mal vivida como uma regra social contemporânea.
Sou neta de uma senhora que mantinha a casa e os negócios próprios com pulso firme e determinação, numa época em que não havia nem televisão colorida.  Dona Francisca era uma empreendedora que fazia pastel e outras guloseimas para vender de porta em porta, sem sequer sonhar que um dia haveria um recurso tecnológico chamado internet, através do qual ela poderia compartilhar seus produtos e vender muito mais. 
Cresci vendo a minha vó paterna correndo prá lá e prá cá. Nem por isso ela deixou de ser a avó dos contos de criança. Trabalhava fora de casa, lavava, passava, cozinhava e ainda tinha tempo e o cuidado de armazenar chocolates na gaveta da cristeira para presentear os netos sempre que a visitavam. 
Do mesmo modo, minha tia-avó, aos oitenta anos, resolveu mudar de vida e de cidade dirigindo sua Marajó branca de Brasília, onde morava, até a nossa garagem. Sem celular, sem GPS, sem homem nenhum servindo de copiloto. Nem por isso deixou de casar, ter filhos e ter tempo para declamar poesias.
Afirmar, então, ser esta uma geração das mulheres incompatíveis com os homens é, no mínimo, deprimente. Não fui criada, nem nunca pensei que deveria agradar a homem nenhum. Cresci acreditando que deveria ser o melhor para mim mesma e se, dessa forma, viesse a encantar algum exemplar do sexo oposto, ótimo! 
Por outro lado, não vejo problema algum em fazer o almoço, tirar o lixo, varrer a casa e, entre uma tarefa e outra, parar para um chamego. Nunca me estressei com as cuecas, deixo que a máquina de lavar sofra com este afazer ou, na melhor das hipóteses, ensino o moço a lavá-las no banho. Toalha molhada é tão desconcertante quanto calcinha pendurada no box. Estas polêmicas são cansativas e chatas!
Tão chata quanto a mulher que é independente, autossuficiente, bem-sucedida e solitária.
O mundo não evoluiu só para nós, senhoras e senhoritas! Conheço muitos homens que vão ao supermercado, cozinham, passam pano na casa, recolhem os cocôs do cachorro no pátio e, entre uma tarefa e outra, param para uma pegada em frente à pia. Homens que não escolhem mulheres pela finura de suas canelas que, como dizia a minha vó, são a garantia das fêmeas trabalhadoras. 
Nunca recebi de algum companheiro uma intimação  para que abandonasse meu trabalho, meus hobbies, minhas crenças. Caso isto tivesse acontecido, certamente, o sujeito não ficaria tempo suficiente ao meu lado para terminar de ler a sua lista de imposições vexatórias. Contudo, isto não me levaria a enxergar todos os homens do mundo como irrecuperáveis manipuladores. 
Se a coisa não vai bem, se a incompatibilidade com o sexo oposto é uma constante em sua vida, isto não tem nada a ver com esta incrível geração. A culpa não é da preservação do machismo arcaico em detrimento à liberação do sexo frágil. A culpa é de ambos. Das intransigências diárias de cada um. Da incompetência em domar o orgulho. Da incapacidade unissex de lidar com as diferenças, sejam elas genéticas ou adquiridas.               
Acreditar que uma mulher seja incrível por ser independente, autossuficiente, bem sucedida mas que, por culpa disto, nenhum homem consegue viver ao seu lado, é o mesmo que acreditar no homem do saco que passava pelas ruas recolhendo menininhas teimosas que adoravam se aventurar pelo lado de fora do portão.
Credo! Nem minha vó cairia nessa.

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Claudinha Pintadinha


Vira e mexe alguém me pergunta de onde vem a inspiração para escrever , e a minha resposta é sempre igual: “a inspiração está no ar”. Aliás, a inspiração não é um dom especial, pelo contrário, ela está aí todos os dias, a cada segundo cutucando a mim, a você,ao vendedor de laranjas, ao gari sambista. A diferença é que enquanto eu a aproveito para escrever,  outro para vender mais, outro para transformar o trabalho em felicidade, alguns nem ousam experimentá-la. Enfim, diria que para inspirar-se basta poder inspirar, estar vivo.
Mas o mais extraordinário da inspiração é a versatilidade com que ela se manifesta. Você  pode inspirar-se tanto com um acontecimento feliz, quanto com uma decepção devastadora. Ouso afirmar que é em meio às maiores tristezas que surgem as mais belas inspirações.
Foi assim que, entre  tirar a roupa da máquina de lavar e correr até a cozinha para atender ao pedido de socorro do arroz que estava prestes a ser queimado, ela  inspirou-me esta crônica: a Galinha Pintadinha, ou melhor, Claudia Leitte.
No dia anterior havia visto uma imagem  na internet  comparando a cantora (na ocasião de sua participação na abertura da copa do mundo) com a personagem de desenho infantil.  Achei engraçado e criativo, no primeiro momento e somente no dia seguinte, em meio aos afazeres domésticos (nestes momentos surgem as maiores sacadas) me detive a analisar mais profundamente o fato.
Claudia Leitte é uma mulher perfeita do ponto de vista externo. Tem um corpão, um cabelão, um bocão, um olhão, um vozerão... E por que, com todo este kit valorizador de seres humanos, ela desperta tanta antipatia? Chega ser mordaz a forma com que muitos a detestam. Digo muitos, pois certamente ela tem numerosos fãs clubes por aí. Admiração não é uma conta exata, tipo “ou oito ou oitenta”, se fosse assim Hitler não teria tido seguidores, nem certos políticos deste país.
Mas, como eu estava dizendo, se eu fosse Claudia Leitte, se tivesse aquele corpão, aquele cabelão, aquele bocão, aquele olhão, aquele vozerão, estaria me perguntando: O que é que a Galinha Pintadinha tem que eu também tenho?
Depois de ter colocado água no arroz e voltado à árdua tarefa de estender  vinte pares de meias (juntinhos!), se eu pudesse responderia a ela que, embora os figurinos de ambas (dela e da galinha) fossem da mesma cor, o problema não é o que elas têm comum, e sim o que elas não têm. Galinha Pintadinha tem personalidade, Claudia Leitte não.
Não estou tirando os méritos da moça, além do kit de exuberância ela possui talento. Só não entendo por que a baiana cismou de incorporar personalidades como a de Beyoncé, Shakira, Christina Aguilera, (a lista não para por aí) menos a dela. A magia não funcionou, ficou aguada, insossa, fingida, exagerada. Uma miscelânea de adjetivos que definem o estilo “O que é que é isso? De onde  você veio? Aonde está tentando chegar?”  A musa brasileira perdeu o caminho e o tino.
Não sei dizer que estilo musical Claudia Leitte deveria assumir, isto é problema dela e do empresário,  só sei que passa da hora dela parar de tentar ser quem não é, e ser ela mesma.
Uma pessoa desprovida de personalidade não consegue sustentar a imagem construída. A credibilidade cai por terra junto com o respeito e só o que fica em pé é um estereótipo capenga. E olha que estamos falando de alguém que nasceu com o “kit” virado pra lua, imagine a catástrofe que se dá quando meros terráqueos tentam ser o que não são.
Mas, no final de tudo, depois das meias desparceiradas e arroz chamuscado, despontou em mim uma admiração (jamais sentida) pela autenticidade de uma artista brasileira. Alguém sabe como posso conseguir um autógrafo da Galinha Pintadinha?

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Torcer e namorar



Há poucos dias me perguntaram o que penso sobre a copa do mundo ser sediada no Brasil e, se eu irei  torcer pela nossa seleção.  Não precisei pensar, nem analisar a situação antes de responder, discordei imediatamente ao saber da confirmação de que a copa de 2014 aconteceria em meu país. Não concordo com nada do que tenha sido feito ou dito em defesa desta “jogada” diplomática, política e totalmente incabível para o momento e a situação caótica em que encontra-se a nossa sociedade.
Entretanto, antagonicamente,  se a resposta ao primeiro questionamento foi NÃO, a  do segundo foi SIM. Não sou hipócrita em afirmar que não vou torcer pela nossa seleção.
Numa analogia barata, eu diria que não torcer pela seleção brasileira por conta das  sem-vergonhices dos governantes do país,  seria o mesmo que não crer mais em Deus por discordar das diretrizes dos dirigentes da igreja na qual fui batizada. 
Torcerei pela nossa seleção sim, senhores. Nenhum radicalismo é forte o suficiente para anular certos sentimentos adquiridos ainda no berço. Eu não tinha a menor ideia do que era futebol,   quando via meu pai e minha mãe pararem todos os seus afazeres para gritarem em frente à televisão com os homenzinhos vestidos de verde e amarelo, para que eles acertassem o caminho e levassem a bola até a rede. Agora não vai ser diferente.
Por coincidência,  o primeiro jogo do Brasil caiu bem no dia dos namorados trazendo uma mistura de emoções que, certamente, farão todos os corações pulsarem de um jeito diferente.
E por falar em coração, assim como esta copa do mundo, namorar tens seus prós e contras.  Aliás, embora as campanhas comerciais ilustrem a data com os coraçõezinhos  vermelhos da paixão  e romantismo, o que se vê no dia a dia dos casais é um pouco diferente. 
Sou uma namoradeira convicta, gosto de ter com quem confidenciar meus anseios, trocar ideias sobre projetos profissionais e viagens inusitadas. Gosto de ter em quem pensar , para quem me arrumar e contesto quando ouço falarem que a mulher se arruma para as outras mulheres.  Me arrumo para mim, pensando nele. 
Gosto de companhia para ir ao cinema, para ir ao shopping, para ir ao supermercado, ainda que ele só aprecie o primeiro item da lista, gosto da incompatibilidade que me faz ter pressa na hora das compras, mas me permite passar pelo caixa de mãos dadas.
Gosto de ter para quem ligar no meio da noite para falar sobre o sonho que acabei de sonhar. Gosto de ser acordada nas primeiras horas da manhã para receber uma mensagem de bom dia, com frases de amor e malícia. Gosto de dormir junto, de roubar o cobertor e brigar pelo pé descoberto. 
Gosto de acordar com alguém, preparar o café da manhã e fazer disto a minha rotina e não um momento romântico qualquer. Gosto de receber o café na cama e sujar a camiseta (cadê o pijama?) de doce de leite que escorreu da banana.
Gosto de dizer “eu te amo” e que este alguém não seja parente ou amigo. Gosto de ouvir eu “te amo” de quem me dá tesão. 
Gosto de ter alguém disponível que, por mais que tenha compromissos , me tenha como favorita em sua agenda.  
Quem mais se encaixaria nesta minha lista de delícias do que um namorado? 
Você deve estar pensando:  e da lista dos contras, esqueceu?  Não, eu não esqueci, aliás, também gosto de avisar a quem acha que namoro é só coraçõezinhos vermelhos:  você vai se dar mal.
Para namorar é preciso ter saco, paciência, inteligência, maturidade, autocontrole...E esta não é uma tarefa só do outro, é sua também. 

Namorar as vezes irrita, incomoda, sufoca, e, admito, que até desperta aquela vontade de ser ímpar e viver sozinha para sempre. Mas,exatamente, as diferenças e, consequentemente, a instabilidade é que instigam, excitam, incendeiam.
Assim como à seleção brasileira, desde muito pequena,  eu amo estar apaixonada, independentemente dos contras,  portanto, neste dia 12 eu vou torcer e namorar.

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O show tem que continuar




Das minhas músicas preferidas, da época em que as músicas eram poesias cantadas que marcariam época e se tornariam imortais, “O Bêbado e a Equilibrista”, sem dúvida, está nas primeiras colocações da lista.

Numa parceria  de João Bosco e Aldir Blanc, a música, além de ser um berro nos ouvidos da ditadura militar vigente na época, é um hino de esperança inspirado pela morte de Charles Chaplin, em 1977. 
“O bêbado com chapéu-coco fazia irreverências mil pra noite do Brasil”. A música é linda, a letra é fantástica e para mim cabe inteirinha neste momento. 
Estamos vivendo outra vez uma ditadura. Não uma ditadura militar, mas um regime onde o governante aglutina todos os poderes, o que não deixa de ser a mesma coisa.  
Não vemos aqui um cerceamento dos direitos individuais, pelo menos não até agora. Pelo contrário, assistimos a um desregramento sociocultural conveniente ao sistema alienante do governo. Ou seja, vivemos numa ditadura às avessas disfarçada de democracia.
Aristóteles e Platão contaram lá atrás a história do ditador como um indivíduo que ganha o controle social e político pelo uso da força e da fraude sobrepondo regras estabelecidas para perpetuar o poder. Alguém já viu este “remake” na versão 3D brasileira? Aposto que sim. 
Não cabe mais a postura de pessoas que fingem que vai tudo bem obrigado! Pessoas que esperam sentadas em frente às suas janelas pelo momento em que a senhora Justiça toque a sirene, ocupe as ruas e dê o toque de recolher aos ditadores. 
Não dá para engolir mais o fato de que pessoas fiquem impassíveis diante de todas e tantas aberrações que vêm devastando os valores sociais. 
Levanta-se a bandeira da degradação do meio ambiente e todos batem no peito para fazer barulho e dizer que estão de olho nos predadores, o que é muito bacana e louvável. Mas quando se trata da degradação social, da ação direta e exterminadora dos princípios morais e éticos dos indivíduos da nossa sociedade, a maioria finge que não ouve, que não vê, não faz barulho, não quer se meter. São vítimas da propaganda subliminar criada pelos meios de comunicação para serem introduzidas no inconsciente coletivo. Também chamados Idiocratas.
Ouso e, ao mesmo tempo, lastimo em afirmar que, na miscigenação das várias raças colonizadoras deste país, o povo brasileiro constituiu-se numa linhagem de sangue ralo e morno, que o torna apático e submisso. Presa fácil para os dentes afiados dos tiranos.
Por tudo isto lembrei da música,  porque  a minha esperança  sobre o futuro deste  país encontra-se na corda bamba sem sombrinha,  e também, porque, tal qual Chaplin para João Bosco, a grande inspiração da minha vida está partindo.
Como é difícil compreender que o show de todo artista tem que continuar.

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Da incerteza do certo



Do velho, mas sempre recomendado, exercício de conhecer-se a si mesmo, confrontar-se com as nossas expectativas  com o propósito de escolher quais valem a pena manter na prateleira intitulada “desejos possíveis” e quais jogar na lixeira da desistência, é apenas um dos embates diários em nossas batalhas pessoais.
Expectativa é algo extremamente complexo de se lidar, pois além das que você já alimenta por si só, tem as que os outros alimentam por você, sobre você e todas as apostas que deveriam importar apenas a você. Ou seja, como se não bastasse nossas próprias expectativas sobre os nossos anseios para nos deixar ansiosos, tem a expectativa dos outros para nos enlouquecer de vez.
Certamente, de todas expectativas da minha, da sua, da vida de qualquer ser humano, ver o amor vingar é uma das que ocupam lugar de destaque na  tal prateleira dos desejos pessoais. Um amor que dê certo, de todos os objetos, é o nosso xodó!
E é exatamente a expectativa de encontrar o amor perfeito que desencadeia nossas maiores aflições e, intoleravelmente, o maior número de palpites alheios.
Quem já não ouviu, no auge de uma avassaladora paixão, alguém soprar-lhe nos ouvidos o vento odioso da duvida: “Você acha que isto vai dar certo?”.
Um minuto após o nocaute você olha para pessoa, dá um sorriso tonto de quem acabou de levantar da lona, e pensa em como rebater à altura o golpe baixo arremessado diretamente em seu coração.
Lógico que não! Nem você, nem eu, nem o intrometido  que resolveu antecipar o futuro, do qual  a única coisa que sabemos é que é incerto.  Ninguém poderá   garantir que “isto”, que é como sua grande paixão foi resumida, vai se transformar no amor perfeito e dar certo.
Claro que esta é a expectativa e, consequentemente, a parte aflitiva de qualquer relação. Ninguém vê os dias, meses, anos passarem ao lado de uma pessoa pensando: “isto não vai dar certo.” A menos que seja masoquista! Por outro lado, dias, meses, anos ao lado de alguém não garantem ter sido a escolha certa, o amor perfeito, nem coisa nenhuma. Pelo contrário, o que pareceu ser  certo por um razoável período de tempo, pode passar a dar errado de uma hora para outra. 
Temos mania de perseguir o certo, de tentar encalçá-lo no esconderijo secreto das coisas raras  e expô-lo publicamente como um troféu de nossa vitória certeira. “Estão vendo, eu sei fazer a escolha certa!” Como se a vida fosse imutável. Como se tudo não se transformasse a todo instante, até os sentimentos. 
Confesso que, por várias vezes, a pressão da expectativa dos outros sobre as minhas próprias expectativas, quase me empurrou precipício abaixo. Em muitos momentos pensei em descartar anseios e sentimentos, porque algum guru das emoções achou, por bem, abrir as cartas do meu futuro incerto. Sorte que a teimosia é uma característica que me ajuda em certos casos. Teimei, não desisti, persisti.
Se deu certo? De uma forma ou de outra deu.Aconteceu do jeito que tinha que acontecer,  durou pelo período que deveria durar e que gosto de chamar de “tempo certo”. Porque o tempo perfeito não é contado pelo número de dias, e sim pela intensidade com que os mesmos são vividos.
Não descarto os grandes anseios da estante, mas na prateleira abaixo delas  gosto de colecionar os momentos especiais, que é para quando poeira da dúvida se impregnar sobre as expectativas mais incertas
, eles continuem embelezando.


                                                                                   

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